Inauguro este blog apresentando um assunto que não tratamos em sala de aula: Literatura Africana.
Não raras vezes exploramos as desventuras dos africanos: pobreza, guerras civis, falta de água e doenças. Quando falamos de alguma coisa boa (o que é raro) falamos de uma África selvagem, lugar paradisíaco, em que podemos encontrar um leão na esquina de qualquer cidade, ou seja, passamos a idéia de uma África que não é só isso.
Que tal começarmos desfazer alguns dos nossos preconceitos para com a África? Apresento abaixo o poema Negra da moçambicana Noémia de Sousa, em seguida farei uma breve análise do poema explicitando como é a literatura moçambicana, especificamente, esta análise obviamente está sujeita a críticas.
Negra
Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de África.
Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,

ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.
Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.,
E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE
A literatura moçambicana defende o imperativo da universalidade da expressão artística, tanto que vozes como da escritora trabalhada, fora muito criticada, pois era considerada por alguns como uma das vozes mais poderosas da moçambicanidade e solidariedade de pan-africanista. A poesia moçambicana enfim exprimia um essencialismo africano e mensagens a favor das massas oprimidas.
Em Negra, Noémia de Sousa corporifica na imagem feminina características da mãe-terra transferindo sensações, desejos e sonhos que sendo aparentemente uma particularidade da mulher moçambicana ali idealizada, acabam por forjar no corpo do poema um sentimento que ultrapassa a busca de um eu individualizado. Percebemos claramente na imagem da mulher feiticeira, cheia de encantos, amante sensual, exótica, características também da mãe terra, da África, que também é misteriosa aos olhos de gente estranha, que lê o continente negro com os conceitos de outros mundos, de outra realidade, ou seja, acabam por compreender erroneamente a África.
A poetiza assume-se como porta-voz daquele povo que é o seu e, dirigindo-se à terra-mãe que os acolhe e protege, ora canta a sua vida, ora lhe pede perdão pela alienação demonstrada ao longo de tanto tempo, ora lhe promete a rápida e definitiva devolução do seu direito a uma vida própria, autêntica. E vale ressaltar que Noémia de Sousa sendo mulher é a voz não só do negro excluído, mas do negro e da mulher que se em nossa sociedade nunca teve vez, imagina em um continente em que nem os homens tiveram.
Peço para que não tenham preguiça para ler e debrucem sobre este poema a fim de encontrar uma maneira de trabalhar isso em sala de aula, com alunos de todas as idades.
Quem tiver alguma idéia ou sugestão, compartilhe-a !