Certamente a paixão pelo futebol muitas vezes transcende os limites da razão. A crônica abaixo descreve justamente isso; a loucura de um torcedor para acompanhar seu clube do coração.
Papel Picado
Mais um entardecer se aproxima e com ele o calor da emoção aflora em meu peito. Posso sentir meu coração bater mais rápido. Eu sei o motivo: é dia de futebol. São em dias assim que me sinto vivo. São em dias assim que sinto fazer parte de algo importante. Pois é o único dia em que as pessoas me olham nos olhos sem ter aquele "olhar indiferente". Me olham como se eu fosse um deles. Me olham como um ser humano. Me olham como se eu compartilhasse as mesmas dificuldades, como se tivéssemos tido uma longa conversa de amigos no dia anterior. Como se eu fosse alguém. Parece magia, mas é dia de futebol. Mágica estranha, já que o final é sempre igual. Pelo menos o meu é o mesmo. Não importa o desfecho, o importante mesmo é estar ali. Mesmo sabendo que o "encanto" vai durar apenas pelos próximos 90 minutos.
Pessoas vão chegando de todos os cantos. São tantas que até me perco no meio da multidão. Dentre elas temos misturadas varias "espécies": ricos, pobres, magros, gordos, negros, brancos mulheres e homens. Do ser mais comum ao mais exótico. Convivendo no mesmo habitat. O impressionante é que todas as "espécies" compartilham as mesmas feições em seus rostos, parecem estar conectadas a um mesmo pensamento. Suas feições de alegria sempre comovem. Emocionam até mesmo as paredes de concreto ao meu redor. A paixão está no ar, as vezes acho que posso toca-la. O rito daqueles seres aquece até o mais frio dos mortais. Não tem como não se apaixonar. Tudo é belo: os cantos, os gritos, as cores, as bandeiras, as emoções. Tudo é muito exagerado também. Os gritos parecem ser os últimos suspiros de vida. Defendemos nossas cores como lutamos por nosso ganha pão. Zelamos por nosso estádio como cuidamos de nossa própria casa.
Fico me perguntando se existe algum lugar parecido no mundo com o estádio de futebol. Se existe, eu não conheço, apesar de não conhecer vários outros lugares legais no mundo. Mas, o estádio è o único lugar que conheço onde classe social não importa. É o único lugar onde ser feio ou belo também pouco importa. É o único lugar onde o que realmente importa é a paixão, apenas ela. Por isso, o futebol é mágico. O futebol é esperança.
Esperança de que tudo vai ficar bem ao final dos 90 minutos. Esperança de que tudo vai mudar depois do gol. Esperança de sermos campeões na vida. Esperança de algum dia sermos pessoas melhores. Ele representa de alguma forma nossas vidas, mas em uma escala exagerada. Elevada ao quadrado da paixão humana "natural". Portanto, nossos pensamentos, sonhos, frustrações, decepções e amores estão naquele gramado. Estão nas chuteiras daqueles jogadores. Nosso futuro depende daquela bola. Nossa felicidade daquele gol. Sendo assim, não ache exagero quando algum torcedor disser: "esse time é minha vida". Talvez por esse motivo torcer é também um compromisso sério para o restante de seus dias. Muito sério por sinal. Mais do que você possa imaginar. Está gravado no dna. Você não tem escolha. Na verdade, você é escolhido. Seu time é sua alma gêmea. Vocês são inseparáveis. Unidos até a eternidade, unidos na maternidade. Juntos na alegria ou na tristeza, na vitória ou na derrota. Parece até casamento, mas sem chances de um divorcio.
Porém, como todo carnaval tem seu fim, o dia de futebol também tem o seu. O apito final do árbitro soa em meus ouvidos como um alarme despertador interno que diz: a partir de agora você volta a ser um cara qualquer. Um Zé ninguém que deve fazer seu trabalho braçal e sujo para pagar seu ingresso. Assim como você faz em todos os jogos. Assim como você concordou em fazer para estar aqui na semana seguinte. Logo me lembro: está na hora de mudar o uniforme. Está na hora de "acordar". Olho ao meu redor e vejo as pessoas irem embora. Alguns solitários, outros não. Alguns tristes, outros nem tanto. Um a um eles vão indo, sumindo aos poucos, voltando para o seu "mundo real", seguindo seus caminhos. Voltando para suas casas. Voltando para suas vidas. Enquanto a minha se resume a limpar os papéis picados no chão depois dos jogos. Não há nada mais triste do que o papel picado depois de um jogo perdido. São esperanças picadas.
Marcos Tavares