Poesia... Poesia, onde pulsa seu coração, sua vertente? Poesia como se define, se transpassa?
Segundo Pedro Lyra, em seu livro Conceito de poesia, 1986, poesia, “(...) é situada de modo problemático em dois grandes grupos conceituais: ora como uma pura e complexa substância imaterial, anterior ao poeta e independente do poema e da linguagem, e que apenas se concretiza em palavras como conteúdo do poema, mediante a atividade humana; ora como a condição dessa indefinida e absorvente atividade humana, o estado em que o indivíduo se coloca na tentativa de captação, apreensão e resgate dessa substância no espaço abstrato das palavra (...) e só existe em outro ser: primariamente, naqueles onde ela se encrava e se manifesta de modo originário, oferecendo-se à percepção objetiva de qualquer indivíduo; secundariamente, no espírito do indivíduo que a capta desses seres (...)”.
No dia 14 último comemorou-se o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem ao dia do nascimento do Poeta Castro Alves, no ano de 1847.
MURMÚRIOS DA TARDE – Castro Alves
ONTEM à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirc'lo d'ouro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verdade pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura — não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa! (...)
Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869.
Assim, festivamente, queremos brindar esse dia e a todos os leitores com poesias dos membros da ABEL (Academia Betinense de Letras).
DESEQUILÍBRIO DO MUNDO – Antônio Fonseca
O planeta Terra gira, no universo,/Regido por forças desconhecidas;/Deus, na sua infinita sabedoria,/Nele plantou o Homem com o esboço do saber.//O Homem, neste planeta, fez história,/Se tornou prepotente – dono de tudo!//Esse Homem caminha na astúcia ou no saber,/Leva a vida, sabe lá como!/Vasculha as ciências,/Descobre novidades./Faz a paz – guerreia depois./E acha tudo normal...//
Bate a cara no muro,/Come sargaços no mar./Corre com fome de gente,/É atropelado na curva do rio.//Esse Homem,/Com orgulho gigantesco,/Luta por notoriedade,/Autoridade e riquezas,/Porém, pobre de espírito!//Homem, Mulher, vale a pena lutar?/Por que, então, seu irmão/Arromba sua casa,/Rouba seu pão,/Veste sua roupa,/Come sua comida?
AUSÊNCIA – Paulo Ursine Krettli
Em casa: eu, Deus,/fotos (...) e um dia com algumas atividades./Varrer, tirar traças das paredes... Suar./Eta vida! E faço poesia... Eleições: fui eleito/pelo amor, pela espera de muitos anos,/pelos versos eloquentes da eternidade/e não estou só... Não estou só!/Hum... Cheiro de café novo pela casa!/Fragrâncias de ameixas... E com que profundidade/penetram em meu ser, em minhas mechas!/
De improviso, pós e poeiras./O almoço/(arroz, alface e ovos), servido no monólogo/desse dia, reflete a paz do amor. Alguns cacos do meu interior e uma pseudoterapia/renovam o cenário id./A estadia de minha memória mora por alguma amnesia/e, nessa simetria/que se me apresenta, ouso ver-me... Nublado o céu!/Durante todo o dia, a noite se esmerou/e, na fuga, vestiu-se solene às vésperas do tempo./Uma leveza tomou-me de ignoto silêncio.
OUTROS RIOS – Raimundo Pires da Costa (em memória)
Esperam por mim, por meus versos/Na tão longa ausência e vagar/De estar aqui sozinho/Nesta terrível solidão./A rua, lá longe, há de ser/Caminho, meu velho caminho/Da rua dos Passos, passagem/Da ponte via Muzungu,/Via Pau de paina, caminho/De Silvestre, sede da fábrica/E veio a ser depois Estação./Cedo, o sol trazia alegria.Tarde, no fim do dia, era a tristeza/De voltar sem nada de novo.
MANJA LÉGUAS – Manuel Martins
Manja Léguas. A capelinha branca./O sinozinho a tocar:/Vitalina tá em casa!/ Vitalina tá em casa!Os campônios rezando/- faz tantos anos.!//Eu, menino descalço e calças curtas, mãos postas e olhar pedidos.../No altar, a imagem a Virgem sorria./Sorria para os homens descalços da roça,/Para os meninos amarelos e barrigudos./Tristes homens e meninos da roça./Tristes, amarelos e barrigudos/- faz tantos anos!
CORVO – Ieda Alkimim
Morri mil vezes.../Morri sentindo o peso do asfalto,/a ferida aberta, qual fissura do mundo!/O corte,/a dor,/a ausência,/a morte ao lado,/como sombra a perseguir-me.//Uma luz tímida reluz serena/sobre os altares fúnebres./O fundo abstrato da penumbra,/a beleza já esquecida/na lápide do meu coração empoeirado./O cheiro frio da lama é um refresco/reconfortante dos dias penosos;/dias de um vazio sombrio do meu mundo,/segundo a retina dos meus olhos./O corvo voa silencioso/
como a eternidade esticada no céu/de inexistência completa e absoluta./Não há melodias, não há sons,/apenas um batido fraco/de um coração moribundo./Os rios secaram.../Em suas margens/de águas leitosas e mal cheirosas,/respiro o homem e sua ambição/numa realidade total do homo sapiens,/de aventura precoce, sem limites/à própria destruição.
PROCURO ROSAS – Ana Maria de Moura
Procuro um lugar no espaço./Procuro um lugar escasso,/Mas procuro...//Procuro acender as velas/Quando há escuridão/E tudo para, tudo vira solidão.//Procurar, mas não achar,/É como ser feliz e não saber porque.//O porquê de procurar/E, apenas, encontrar/Pétalas de rosas espalhadas pelo mar.
ÁGAPE – Gilbertho Lopes
É tarde para cear./As alegrias não foram partilhadas/Nem contadas/Nem vividas;/Por toda vida colheu dissabores.//De natureza cética,/De coração empedernido,/A divagar, com olhos lassos,/Sem nada que pudesse acalorar/Ou lhe acender novas paixões.//Para o seu prazer,/O ciclo da própria voz,/O corpo quente solitário,/Artérias,/O sangue,/O delírio jorrando...
FUGINDO – Francisca Ribeiro
Piso, me esmago.
Percebo que o embalo
do coração que flecha,
flerta e fecha
Penso em ti,
esmagando a mim.
A MORTE DENTRO DE MIM – Eduardo Venâncio
Por que, oh! Morte,/Faz-me soletrar versos insanos/Em dias de minha vida/E acabas com meus sonhos.//Vi correr, pelas campinas,/As verdes matas que tu matas/E pelas sombras, que tu levaste,/Andei e sobejei, disseste-me verdades.//
Mas, se um dia eu vir aqui/E não souber como acabar com isso,/Lembra-te, serei nada em um compartimento/De tristezas sofridas.//Morte a galopar, minhas verdades não direi./Mas casos contarei com receio,/Receio de que tudo acabe/No infinito jeito de se escrever.
QUERO TE VER! – Jonas Augusto
Com tu tenho que estar um momento.//Ah, penetrar tua alma quando me desfrutar do teu olhar,/encontrar minha essência ao escutar tua voz,/chegar ao céu modelando teu rosto;/tocar-te, tocar-te, como a um convite,/e dizer eu te amo!//Quero te ver! Quero te ver!/Em ti existe o mundo que sempre sonhei./A música, de ti, fica mais linda nesta manhã de domingo.//A cada tic tac do relógio e cantar das aves,/quero me desfrutar de tua presença.//Procuro-te, procuro-te!/Encontro-te somente no olhar do espelho.
GILBERTO REIS
Ah!.../Quando eu era criança,tanto sonho, tanta esperança./Eu tinha um colo para chorar./tinha mãos a me salvar/nas minhas aventuras de criança.//Hoje, não tenho mais colo/nem mesmo meus super-heróis!/Não mais histórias para dormir/nem aparece alguém para me acalantar!//Ah!.../Quanto eu era criança,/tanto sonho, tanta esperança,/não imaginando que, hoje,/eu sentiria saudades de mina infância
UM VIVO NOS OMBROS DA MORTE – Manoel Fernandes Dias
Que nome terei quando morrer?/Não serei mais filho/De José e Maria?/Não serei Emanuel?/E então?.../Quem me poderá dizer,/Agora, enquanto me corre nas veias/
Este vinho de falsa vida,/A migalha ou o tesouro que serei?//Talvez, eu continue por aqui ainda/Na boca de algum tolo. Em versos, diante da ânsia/De sorver a cerveja,/Pois só na arte o homem é perpétuo/.Imagino o meu posto de crítica/Observando o verso,/Saltando entre chuvas de saliva na boca/De um bêbado bailando na mesa.//A vida dos vivos/É um projeto sem esquema/Onde o arquiteto morto, realizado,/Não deixou vestígio de como caminhar para lá./O diagrama para se chegar à morte é nenhum,/Ela é certa.../O caminho da morte é a vida;/Não foi a vida que durou tanto,/Foi a morte que demorou a chegar hoje/E ela está mais próxima do que ontem./E lá, no túnel, quem serei?/Garanto não voltar/Para que gozem da mesma impaciência.
ZÉ CAIPIRA EM “NO SHOPPING” – Givan Macedo
Zé, tendo comprado a égua, foi à cidade comprar uma televisão.
- Bom dia, Zé, veio me visitar?
- Bão, vim comprar uma televisão.
- Uma televisão, Zé?!
- É... Vir o Chico com sua televisão e vim virificar.
- Onde você vai comprar?
- Na lorja, ora!
- Em que loja?
- Quarquer uma...
- Está bem, vamos ao shopping.
- Chopim?
- É o paraíso ds compras.
No shopping...
- Ali tem uma, vamos olhar?
- Quantor custa?
- Três mil reais...
- Quantas polegadas?
- Trinta.
- Tar doido, vor embora...
- Zé, espere!
- Não vorto mais aqui, nunc mais!...
- Por quê?
- Se irto é paraíso, imagine o inferno!
SÚPLICA – Lúcia Brito
Se me ensinarem a sonhar,/não morrei com meus sonhos sufocados.//Se me ensinarem a amar,/não morrerei como deliquente.//Se me ensinarem o sentido da paz,/não serei indivíduo-bomba.//Se me ensinarem os princípios/da Sabedoria Divina/e agirem como seres/que buscam a plenitude,/serei construtora da paz!
REFLEXOS NOTURNOS – Deck Carmona
No aniversário do meu travesseiro,/Meu corpo, ainda cansado do pesadelo,/Repousava na imensidão do quarto./O quarto, velho amigo confidente,/Atelier de tantas alegorias virtuais,/Projetava, na parede, os reflexos noturnos./Os sonhos, em parceria com a ilusão,/Esculpiam, em pedras brutas, jóias raras./Quando entravam em alfa,/Os visitantes do além vinham constatar,/Se eu estava, de fato, comigo mesmo./Por trás da antiga veneziana,/Se escondia o enigma das mil e uma noites./Da vidraça da janela, longínquas estrelas/Transpunham-me para o infinito./As noites de inverno esquentavam as esperanças,/As noites de verão esfriavam os desejos.../E, assim, o tempo avançava pela vida afora,/Indo se perder na imensidão do nada./Os valores das coisas da vida/Ainda não valem o preço do meu coração/E viver em paz, os sinceros prazeres,/Vai se tornando o mais nobre privilégio./No terceiro aniversário de meu travesseiro,/Olhei no espelho do meu quarto/E vi que não estava totalmente sozinho./Então... Confortei o meu espírito/E adormeci.
O QUE SOU? – Cristina Viana
Sou terra, sou água,/O barro para você pisar./Sou lua, flor, perfume para você enamorar./Sou poesia triste, um coração a pulsar./Pulsar no ritmo que você quer,/
A hora que precisa, no momento exato,/À pura certeza da morte.//Caso não sinta esse pulsar/Vagando feito andarilho, sem rumo,/Na incerteza, uma única esperança/De ver seu rosto surgindo no meio da multidão,/Por entre gotas de chuva/Que jamais conseguirão molhar minha solidão.//Vejo/Que a mais pura e singela flor/Desfolhou e caiu.
AO POETA – Tina Poeta
Chora poeta, chora!/Deixa as lágrimas rolarem,/Derrama do peito as mágoas/E me conta a sua história.//Brinca poeta, brinca!/Faça de tudo uma comédia,/Transmita a magia da vida/Em seus muitos mágicos versos.//Sorria poeta, sorria!/Transmita a sua alegria,/Deixe de tanta agonia.../Use a sua força/De transformar tudo, assim,
Como num toque de mágica,/E faça uns versos só para mim.